Deusche Welle

Ivan Mazuze

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A arte de Ivan Mazuze de mesclar a melancolia tsonga e minimalismo nórdico

Ivan Mazuze, recupera com mestria a melancolia da música tsonga no seu estilo afro-jazz. E ele acrescenta pitadas da "limpeza" minimalista nórdica. O saxofonista moçambicano brinda-nos a cada dia com maturidade musical.

Ivan Mazuze, músico moçambicano 

A melancolia que carateriza a sua música já foi mais viva nos moçambicanos nas décadas pós-independência. Mas o lado mais animado da música da região sul de Moçambique não é excluído das suas composições. Para muitos jovens de hoje, as músicas de Ivan Mazuze de certeza funcionam como "viagens indiviuais" para esse período e, claro, para um estilo musical que faz muito sucesso atualmente entre os moçambicanos: o afro-jazz. Na bagagem já têm três álbuns: Maganda, Ndzuti e Ubuntu. Em Oslo, Noruega, a DW África conversou longamente com o compositor e saxofonista moçambicano:


DW África: É muito forte na sua música a melancolia da música tsonga. A que se deve isso?

Ivan Mazuze (IM): Em primeiro lugar, faço parte do grupo étnico tsonga. Mas falando em termos de música, quando comecei a fazer o meu mestrado, e a razão da escolha do tema do meu mestrado, é que cheguei ao ponto de querer investigar sobre a minha existência, a minha cultura e consequentemente a música por detrás dessa cultura desse grupo étnico de que faço parte. Isso foi em 2005, depois de ter feito o bacharelato em estudo de jazz, em que precisava de investigar e identificar-me com os meus valores culturais e criar música inspirada por esses valores culturais, por esses sons que defines como tsonga. Mas, claro, não é uma representação tradicional, é contemporânea, é moderna é uma mistura de sons e usando também a língua xangana.

DW África: E como o Ivan começou a fazer música?

IM: A primeira vez que tive contacto com um instrumento [musical] foi quando tinha quatro anos. O meu pai comprou-me um piano de brinquedo e eu tinha um certo talendo, tocava melodias, como por exemplo "parabéns a você". Mas isso não definia nenhum futuro real sobre esse encontro com o instrumento. E quando eu tinha sete anos houve uma necessidade da minha família, particularmente do meu paí [de me colocar na escola de música], porque era uma criança irriquieta, quando voltava da escola nunca fazia os trabalhos de casa e ia a correr para brincar ou jogar futebol. De certa maneira isso preocupou o meu pai que queria encontrar uma forma de me pôr mais concentrado e então matriculou-me na ecola de música. A partir dos sete anos comecei a fazer música academicamente. Não sei se isto responde a tua pergunta... 

Mazuze é também diretor artístico do Festival do Dia Internacional do Jazz em Oslo 

DW África: De certa maneira, sim... Mas a tocar, a compor música, a fazer concertos e a participar em trabalhos de outros músicos, em que contexto foi?

IM: Tudo começou em Moçambique quando eu tinha 15 anos. Tive um envolvimento com músicos, tipo Stewart Sukuma, Ghorowane, Nondje, Tio Wazimbo, Mingas e Kapa Dech, na altura. Eram músicos que tinham um certo impacto popular, essas foram as minhas experiências, sem deixar de lado a organização de jazz que lá existia através do professor da Escola de Música Orlando da Conceição. Ele era o professor de instrumentos de sopro e através dele tive a abertura para aprender jazz, a improvisação e mais tarde a participação nos trabalhos desses músicos populares que mencionei.

DW África: Quando começa a compor as suas próprias músicas?

IM: Comecei muito cedo, lembro-me que a minha primeira composição foi quando tinha 16 anos, mas não era uma coisa substancial, era algo natural. Mas com uma definição de que estava a compor coisas definitivas foi a partir do meu segundo ano de faculdade na Universidade de Cape Town.

DW África: Vive atualmente na Noruega. A sua música já tem alguma característica local?

IM: Claro que sim, não é a primeira pessoa que me pergunta isso. Ora, vivendo na Noruega e participando em trabalhos com músicos noruegueses é natural que a minha música tenha uma certa influência nórdica, da música norueguesa neste caso, e o resultado disso é o meu último álbum chamado Ubuntu. Participam certos músicos noruegueses, o Jacob Young e Michael Block que realmente trazem essa sensibilidade de expressão nórdica para o ábum. Então, vem naturalmente, há uma necessidade de ter este tipo de expressão na minha música, porque nós interagimos e fazemos muita colaboração musical. 

O músico é membro da mais prestigiada organização de compositores da Noruega, o NOPA

DW África: E em que consistem essas característica norueguesas? São em termos de musicalidade, de instrumentos... 

IM: É aquilo que se diz minimalista. Este conceito apresenta uma forma musical simples e mais definitiva em termos de audição de cada instrumento. É como numa banda, por exemplo, e a pessoa consegue definir cada instrumento no seu lugar, algo especial. Das experiências africanas que tenho, não vou usar o termo saturada, há uma tendência de se expressarem todos ao mesmo tempo, como se estivessem a falar ao mesmo tempo, o que é lindo também, mas é outro tipo de expressão. Há um princípio que existe na música norueguesa que eu realmente adoro e incorporo nas minhas composições. Às vezes não precisamos gritar para sermos ouvidos.

DW África: O Ivan viveu também na África do Sul. De que forma essa diversidade de vivências contribui para a sua música?

IM: De muitas formas. Como disse, vivi em Moçambique e por isso tenho influências da música moçambicana, na África do Sul com muita experiência com bandas e artistas locais por um período de quase dez anos e agora na Noruega com interação com músicos não só noruegueses, mas também da região. E sendo um artista viajante e a interagir com músicos de diferentes nações torna-se o que se chama de música versátil com influências de vários elementos de formas artísticas de muitas partes do mundo, especialmente da África do Sul, Moçambique e agora nórdica. Têm um grande peso porque são os lugares por onde passei e continuo a passar.

DW África: Porque o Ivan escolheu a Noruega para trabalhar? Pergunto isso porque as referências do jazz e do afro-jazz no seio dos músicos moçambicanos, e até do próprio público, não são nórdicas...

IM: Tive uma oferta de trabalho na Noruega em 2009 para dar aulas num Instituto de Arte, onde dou aulas até hoje. Isso deu-se pelo facto da Universidade de Cape Town, onde era estudante na altura, fazer um intercâmbio cultural e académico. E na altura eu estava a acabar o meu mestrado e essa instituição norueguesa precisava de alguém com o meu perfil académico, com formação em etnomusicologia ligada à África. Eles ofereceram-me o emprego, houve uma curiosidade do meu lado e certas coisas levaram-me a abraçar a Noruega em termos musicais. Estando aqui não significava estar fechado, existem aqui outros grupos de várias partes do mundo, e principalmente de África e, por isso, não me senti tão distante das minhas raizes africanas. Então, achei o lugar muito interessante para desenvolver a minha atividade artística.

DW África: E qual é o valor singular que a sua música traz para o contexto musical norueguês?

IM: Em certa medida, definitivamente, o meu estilo musical é completamente diferente do estilo norueguês. Dessa forma faço o meu contributo dou meu valor cultural e artístico, quer dizer, uma nova expressão cultural foi introduzida na Noruega. Então, há uma contribuição para o país, embora não seja nova a expressão, mas é para o país e por isso tem um impacto positivo.